A última carta de um moribundo

Por: alma lusitana

A noite estava gélida e tempestuosa
A lua vagueava sem destino
seguia visivelmente angustiada
por labirintos infinitos
pela profundez do desconhecido
em busca da sua identidade


O vento emergia do oculto e manifestava-se
num som cavernoso que dilacerava a imensidão nocturna


Nas horas mais distantes, lamentavam-se as almas
que habitam além do sol nascente
onde o tempo não voa
não chora
não se manifesta


Eu permanecia ali, deitado numa cama de angústia
com as vísceras em desespero e o corpo tatuado pelas chagas
um desistente, lamentando não poder parar o tempo
para dissipar todo este meu devaneio


Num minucioso gesto, uma encapuzada sem rosto
desfere com o seu cajado a minha sentença
a minha libertação terrena


Sem receios e extremamente agastado
encerro as minhas pálpebras padecidas e envio a alma
rumo à minha nova morada celeste
onde permanecerei toda a eternidade


Mortais, não devem por mim derramar uma única gota lacrimal


Para além do sol nascente
a dor é como o tempo
não voa
não chora
não se manifesta


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